Estou numa fase bem interessante do não-concluí-o-doutorado (insisto, com hífen). Agora quero vingança. Isso significa ler o que eu quiser em todo tempo livre. Assim, nessa meu momento balada com a literatura, hedonista mesmo, li semana passada Caim, de Saramago.
Não vou fazer nenhuma crítica consistente. Aí vai apenas um comentário.
Saramago continua dominando a técnica, coerente a um grande escritor. O texto flui. Dá para ler numa sentada. Mas é só. Em uma semana, mal me lembro do livro e, não fosse a obviedade do enredo, nem saberia do que se trata.
O nosso português rabugento e querido, do belo Jangada de Pedra, insiste em conversar com Deus. A imagem que tenho é de dois velhos briguentos esgrimando com suas bengalas gastas: saramago e o barbudo. Alguém precisa avisar ao escritor que Deus morreu. No lugar dele inauguraram um novo shopping na Paralela.
É só por agora. Tenho que ler um Vargas Llosa.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Uma explicação
Quando iniciei este blogue havia uma real intenção de postar os textos nascidos da elaboração de minha tese de doutorado. Nada feito. Empaquei no blogue e na tese. Hoje faço análise duas vezes por semana para tentar conviver com a terrível sensação de fracasso!! Um horror!
Agora resolvi retomar o blogue como parte da terapia. Quem sabe aqui eu consiga dizer o que não faz mais sentido para mim no meio acadêmico.
Veja, isso aqui não é uma tese, mas o diário terapêutico de uma sem-tese (com hífen mesmo).
......
E não tem sido fácil. Pode parecer bobagem, exagero, mas teses inconclusas são fantasmas, que nos assombram todo o tempo. Muitas vezes já acordei no meio da madrugada com a certeza plena de que a tese estava prontinha na minha cabeça e que bastava sentar no computador e deixar que o resto aconteceria. Engano. O dia amanhece e o vazio está ali, 'rente que nem pão quante', os dedos não reagem a nenhum estímulo.
Outras vezes a madrugada era de listas de coisas que larguei pelo meio do caminho: inglês, dança do ventre, ginástica natural, um milhão de livros, corte e costura, promessas... Logo eu concluía pela minha incapacidade de terminar qualquer coisa útil (olha que nessa listagem eu não incluí este blogue).
Ah! Isso não se resume à vida acadêmica. Você se transforma em péssima pessoa, mulher, profissional, amiga, cozinheira etc.
Outro dia fiz um bacalhau que ficou horrível. Acreditem, imediatamente pensei na tese e vi naquele bacalhau salgadíssimo e derretido o texto inacabado. Enfim, a vida vira um verdadeiro inferno dos melindres.
É isso por hoje. Afinal, não quero piorar meu humor.
Agora resolvi retomar o blogue como parte da terapia. Quem sabe aqui eu consiga dizer o que não faz mais sentido para mim no meio acadêmico.
Veja, isso aqui não é uma tese, mas o diário terapêutico de uma sem-tese (com hífen mesmo).
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E não tem sido fácil. Pode parecer bobagem, exagero, mas teses inconclusas são fantasmas, que nos assombram todo o tempo. Muitas vezes já acordei no meio da madrugada com a certeza plena de que a tese estava prontinha na minha cabeça e que bastava sentar no computador e deixar que o resto aconteceria. Engano. O dia amanhece e o vazio está ali, 'rente que nem pão quante', os dedos não reagem a nenhum estímulo.
Outras vezes a madrugada era de listas de coisas que larguei pelo meio do caminho: inglês, dança do ventre, ginástica natural, um milhão de livros, corte e costura, promessas... Logo eu concluía pela minha incapacidade de terminar qualquer coisa útil (olha que nessa listagem eu não incluí este blogue).
Ah! Isso não se resume à vida acadêmica. Você se transforma em péssima pessoa, mulher, profissional, amiga, cozinheira etc.
Outro dia fiz um bacalhau que ficou horrível. Acreditem, imediatamente pensei na tese e vi naquele bacalhau salgadíssimo e derretido o texto inacabado. Enfim, a vida vira um verdadeiro inferno dos melindres.
É isso por hoje. Afinal, não quero piorar meu humor.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Olha o passarinho!
Olha o passarinho!
Foto dos cavalos. Aqui. Assim, quando a gente chega, logo vê. Vamo dormir ali, mais perto da parede. Fale baixo. Esse lado não é bom, bate sol. Bate sol nada, o sol só chega pela tarde quando já estamos fora. Você se lembra da Marinalva? Ela morreu quando morava nessa rua. O povo tentou socorrer, mas não deu tempo. Também, essa gente só ajuda quando não tem mais jeito. Mas ela já tava velha demais, não tinha ninguém por ela, vivia por aí, bebia muito. Muito diferente de nós, eu tenho você e você me tem. Os cavalos não ficaram bem nesse lugar, muda pra cá, assim, como se fosse na cebeceira da cama. Ficou melhor. Nalva era de Itaberaba, lugar bom para abacaxi. Faz tanto tempo que não chupo abacaxi. Quando começa a encontrar abacaxi? Acho que é no final do ano. Muito doce...Eu gosto daqui, é mais arejado. A Barra é tão quente. Aqui é mais alto, refresca mais. Os prédios são mais bonitos, tem mais pessoas ricas. Morar aqui é muito bom. Será que ficaremos muito tempo, igual Nalva? Acho que não. Já vi gente olhando pra nós de cara feia. Na Barra tem mais turista, prefiro eles. Num sei não, esse ambiente aqui é melhor. Mas não dá nada. Estamos nesse espaço por sorte, mas acho que não dura. Você sempre vê o lado ruim das coisas. Sou prático. Se eu tivesse filhos, ia criar eles nesse lugar. Graça!!!! Estou morando na Graça! Não é engraçado!
Uma prima minha achou um lugar bom na Pituba, mas acho ali muito perigoso. Tem muitos marginais, fazem maldade. Olha a quantidade de árvores, bonito. A Pituba é mais quente. Mas tá mais perto do mar. Aquele mar não presta nem tem turista.
Você gosta de dicionário? Já tive um, mas não sei onde foi parar. Eu queria ter um dicionário para colocar do lado da cama, aí todo dia eu lia uma palavra diferente antes de dormir. Ninguém me segurava, eu ia aprender todas as palavras. Sabia que eu sei e escrever desde quando tinha uns oito anos. Aprendi rápido. Quando a gente tiver um dicionário vou escrever nossa história, vou contar tudo.
Me ajuda, pára de falar, vai acordar todo mundo. Cadê nosso cobertor? Tá na sacola. Você viu aquela mulher com o bebê? Que criança linda. Queria ter filhos, engravidar. Você ficou louco, rapaz. Como fala besteira! Eu não posso querer as coisas? Sonhar é permitido. Mas engravidar é impossível. Que nada, cada dia acontece uma coisa diferente no mundo. Jéferson tem peito e bunda de mulher, eu posso ter barriga e neném. Fica falando essas coisas que os crentes aparecem e expulsam o demônio do seu corpo novamente. Deus é mais!
Nalva não sabia ler, mas fazia conta muito bem. Era bem espertinha. Lembra quando ela era nossa vizinha lá em Sussuarana? O melhor abará da Bahia. Quando não bebia. Que caruru! Perdeu tudo. Coitada. A gente não perdeu tudo, só aquele barraco. Aqui é bem melhor.
Pronto, Antônio, venha deitar logo. Vou ficar agarradinho com você. Não, tá cedo ainda e eu não quero dar motivo pra aborrecimento. Mais logo eu dou uns beijos em você. Agora deite e se aquiete.
Hoje não tomei banho. Não gosto de ficar sujo, não gosto de feder. Queria ter perfume, um pra cada dia. Um sabonete bom, creme pro cabelo...Aqui nessa farmácia devia ter tudo isso. Lá na nossa casa tudo ficava limpinho, eu, a casa, você. Mas aqui é melhor, vai ficar tudo bem. A vista é melhor.
Lá na Barra o gringo perguntou meu nome e depois disse ‘belo Antônio’. Ele me achou bonito... Olha que já faltavam esses dois dentes. Nunca mais eu bebo muito, não quero apanhar de novo. Vá dormir, vá. Os gringos são esquisitos. Gostam de cada coisa... Ele ficava repetindo ‘belo Antônio’ e rindo, rindo sem parar. Será que ele me levava lá pra fora. Diz que dá muito dinheiro ir pra esses lugares. Mariza me falou que Nalva já teve um gringo, que ele ficou doente e foi embora, aí Nalva endoidou. Coitada. Ainda bem que você não me deixa. Durma logo.
Zé, será que a gente fica pelo menos uma semana? Queria tanto ver como é o domingo aqui. Acho que sim, eles não são de reclamar muito quando a gente não faz zoada. A farmácia acabou, a marquise tá livre, é só deixar o tempo passar. No domingo compro picolé pra você no jornaleiro do Largo da Graça. A gente senta no banquinho e fica olhando o domingo passar. Pode ser picolé da Kibon, se quiser. Prefiro o Capelinha de tapioca. Se eu tivesse uma vassoura varria essa calçada. Vou arranjar uma, tá bom? Agora durma e sossegue, logo cedo quero chegar na Barra. Lá tem gringo, lá tem sempre uma merreca.
Zé, será que ficar nessa rua faz morrer? Não quero terminar igual Nalva, quero ver o domingo chegar. Tonho, fique calmo, você ainda demora para morrer. Olhe, tem até esse lençol mais novo, aproveite, amanhã alguém pode roubar. Durma, durma.
Você gostou do quadro dos cavalos nesse lugar? Não, prefiro ficar olhando pra eles até dormir. Vou mudar, faz de conta que é nossa foto, esses dois cavalinhos apaixonados.
...
Domingo desses levo você na Graça. A gente chega cedo, passeia pelas ruas bonitas, você pode olhar os prédios, eu nem vou ficar com pressa. Pode olhar o quanto quiser ou até alguém mandar a gente circular. Vou comprar um picolé e vamos fingir que nossa casa é ali. Vou arranjar umas roupas boas para nós dois. Domingo desses vou mandar tirar uma foto nossa igual a dos cavalinhos pra gente pendurar na melhor parede que aparecer. Domingo desses você volta com a Nalva, vai ter abará e você falando besteira.
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